Convite à traição


O poder, ainda que em uma mera expectativa de possibilidade futura, tem a capacidade de embotar a razão e afogar o bom senso. Só isso poderá explicar o discurso com que alguns aliados do senador Cássio Cunha Lima vêm tentando justificar a proposta para que o tucano, jogando fora a palavra empenhada com tanta veemência ao longo dos últimos meses, saia candidato ao Governo do Estado.

Trata-se de uma tese tão grave, dadas as consequências que suscitaria, que mais se assemelha a uma ideia de inimigos. Mas, não é. É coisa de alguns amigos, de apaixonados e, inevitavelmente, de um ou outro áulico, que, portanto, se mostram incapazes de refletir que a queima de incenso ao senador, se o convencesse, seria um desserviço, um mau conselho de resultados com forte potencial de desastre – para ele.

Como a essa altura da vida, da trajetória política, da carreira pública Cássio justificaria uma quebra de palavra de tamanha magnitude? Como evitaria imprimir à sua imagem o carimbo de traidor?

Quais contorcionismos verbais lançaria para explicar que as incontáveis vezes em que veementemente avisou que o prefeito Romero Rodrigues tinha seu total apoio, que seria ele, Romero, o candidato do PSDB se assim o que quisesse, que toda essa fala não passaria de falso discurso, talvez até de um estratagema para enredar e, depois, tirar do caminho o primo-correligionário?

Cássio, que já soma seu bom índice de rejeição, se sujeitaria ao repúdio de muitos dos que ainda o apoiam e ao achincalhamento dos adversários e inimigos. Mais que isso, se lançaria a uma aventura em que, como traidor, dependeria do traído – Romero – para não sofrer uma derrota muito maior, muito mais dura e de efeitos muito mais severos que aquela de 2014.

Ali, Cássio perdeu, mas manteve o mandato no Senado e uma base de aliados e eleitores ainda muito fortes. Hoje, se, embarcando na atoleimada ideia de alguns, sonegasse a Romero a oportunidade da candidatura, dependeria da manutenção da fidelidade de Romero para não ser fragorosamente derrotado, afinal, não precisa ser especialista em disputadas eleitorais para saber que, em caso de eventual rompimento, em caso de uma migração de Romero para outra base – quer de José Maranhão, quer de Ricardo Coutinho, as chances de Cunha Lima voltar ao Palácio da Redenção praticamente sumiriam. Perderia, no popular, a besta e o frete.

Apostam, contudo, os defensores da tal tese, que o prefeito campinense jamais, nunca, de jeito nenhum pagaria o mal com mal. Uma certeza muito arriscada, arriscada demais, acreditar que uma traição tão grave seria paga com fidelidade inexplicável.

Até agora, porém, não se viu ou ouviu qualquer gesto público do senador a corroborar o plano mirabolante dos seus fãs mais ardorosos. Pelo contrário, da boca do deputado federal Pedro Cunha Lima, seu filho, o que se ouviu foi que a questão em torno do nome do PSDB para concorrer ao Palácio da Redenção já seria debate superado, com plena concordância em torno de Romero.

Caso não sejam apenas meras palavras, estaríamos diante de um recado claro de que as lições de 2014 não foram esquecidas pelo núcleo cunhalimista, e de que o convite à traição receberá solene recusa – pelo bem dos que o rejeitam.

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