“Máfia das Covas”: Campina FM revela esquema criminoso em cemitérios públicos de Campina Grande. Ouça


A Rádio Campina FM revelou esta semana a existência de um impressionante esquema criminoso atuando nos cemitérios públicos da cidade. Em uma sequência de reportagens, que incluíram testemunhas e gravações secretas, a emissora revelou como agem grupos que coagem e extorquem familiares de mortos ao pagamento de uma taxa mensal, que varia entre R$ 20 e R$ 30.

FIGURAS INSUSPEITAS

A “Máfia das Covas” é formada por figuras à primeira vista completamente insuspeitas. Senhoras simples, que geralmente moram nas redondezas dos campos santos e cuidam das sepulturas, algumas das chamadas “zeladeiras” (zeladoras) se apropriaram dos espaços públicos conhecidos como covas rotativas (ou rasas), onde são enterradas pessoas que não possuem terrenos privados.

Em tese, os restos mortais deveriam permanecer nesse tipo de sepultura entre três e cinco anos, devendo, em seguida, ser removidos para ossários, o que, inclusive, minimizaria o quadro de superlotação dos cemitérios públicos. Todavia, uma simples visita a estes locais e uma checagem rápida das cruzes vai mostrar que não são poucas as covas públicas ocupadas há muito mais tempo.

E são elas, as zeladoras, que decidem na prática qual sepultura deve ou não ser reocupada. Sem saber que estava conversando com um repórter, o administrador de um dos campos santos da cidade chegou a afirmar que são elas, essas insuspeitas senhoras, que realmente coordenam a rotina de sepultamentos.
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COMO AGEM

“Quando a pessoa paga para a gente zelar, (o terreno público) fica como um terreno próprio. Aí, só se mexe na cova para colocar gente da família”, explicou, sem saber que estava sendo gravada, um zeladeira, rodeada por outras. O repórter quis saber o que acontece com quem não paga. “Tira e bota qualquer pessoa no lugar, e bota os ossos nas abandonadas”, respondeu uma delas, apontando uma espécie de vala.

Em seguida, explicam melhor, em tom de pilhéria. “É onde o povo não paga. Quando chega uma pessoa atrás dos ossos, a gente manda procurar ali... nunca zelou”.

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Ou seja, o processo é simples, com duas possibilidades, e, em ambos os casos, a conduta é criminosa: quem paga o mensalinho para que a cova seja zelada, passa a ter uma espécie de propriedade privada em um espaço público, uma sepultura simples, porém permanente, numa área que deveria ser temporária. Quem não paga, verá os ossos dos entes queridos retirados sem aviso prévio e lançados em um monturo.

É assim que zelar a cova, o que representaria apenas garantir que a sepultura seja mantida limpa e adornada por flores, implica, na prática, em um contrato ilegal e criminoso.

VIOLAÇÃO E ENVOLVIDOS

A coisa, porém, não para por aí. Quando a família não aceita pagar a mensalidade, além de saber que os restos mortais terão por destino certo uma vala comum, ainda se sujeita a achaques sempre que vai ao cemitério. “A zeladora chegou para mim e propôs zelar a cova de um parente, que morrera há pouco. Eu disse que não precisava, que eu mesma cuidaria de vez em quando, aí ela falou para mim: ‘É, só que quando não tem ninguém daqui zelando, o povo leva a cruz, bagunça'”, revelou uma testemunha, que pediu para não gravar nem ser identificada.

O comércio de cruzes usadas é um indício claro de que há algo errado. Não é difícil flagrar pessoas removendo inscrições de cruzes para revendê-las. Por que esses símbolos seriam retirados? As famílias autorizaram a revenda?

Uma testemunha ouvida pela Campina FM confirma: o roubo de cruzes é uma violação comum das covas que não são zeladas. O homem, que aceitou gravar desde que tendo seu nome resguardado e a voz distorcida, trabalhou durante uma década em cemitérios públicos do município, e deu detalhes sobre a atuação da “Máfia das Covas”.

Ele revelou que, em alguns casos, os administradores participariam do esquema, dividindo os lucros com zeladoras e coveiros.
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APURAÇÃO

Entrevistado pela Campina FM, o secretário de Serviços Urbanos e Meio Ambiente do Município, Geraldo Nobre, revelou-se surpreso com as denúncias. O gestor também se mostrou incrédulo com as informações, preferindo acreditar em “um equívoco”, mas, ainda assim, garantiu que o Município vai investigar o caso.

“Se isso estiver acontecendo, é um absurdo, é inaceitável. Tendo ou não tendo procedência, vamos apurar. Já convoquei os administradores dos cemitérios para ouvi-los sobre essa reportagem”, explicou.
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Segundo todas as testemunhas ouvidas, a atuação da “Máfia das Covas” é antiga e, por isso mesmo, enraizada nos cemitérios de Campina Grande. As zeladoras, figuras-chaves da denúncia, não possuem qualquer vínculo com o poder público.

A reportagem da emissora constatou que o quadro geral é de superlotação nos campos santos públicos, uma situação reconhecida pela Secretaria de Serviços Urbanos e Meio Ambiente, e agravada pela privatização das covas rotativas pelo improvável esquema criminoso.

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Reportagem: Gustavo Xavier, Paulo Pessoa e Lenildo Ferreira

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