"Sobre tempos e saudades" - Crônica da Semana no Jornal Integração, da Campina FM. Ouça


Eu ainda nem cheguei à chamada meia idade, e já me vejo tomado pelo saudosismo.

Eu sinto saudade do tempo em que tinha tempo para estar com os amigos. Rindo, tocando violão, jogando conversa fora, dividindo sonhos, expectativas e projetos.

Hoje, olho fotos antigas e lá eles estão. Mas, há quanto tempo não os vejo. A vida e a morte foram nos afastando. Tão jovens, alguns já partiram para a eternidade; outros, foram morar em cidades distantes; e ainda há alguns que, estando tão perto, estão tão longe.

Até parece – e é assim, de fato – que aquelas fotos são memórias de um tempo que não voltará mais. Nunca mais!
Eu sinto saudade de não ter tanto medo. Não precisar viver trancado dentro de casa, não precisar andar tão desconfiado na rua.

Como faz falta aquele tempo em que a gente ficava conversando até tarde com os vizinhos na porta de casa. Em que a rua era o lugar da molecada, jogando bola, rodando pião, soltando pipa, brincando de bila, de toca, de barra-bandeira, de esconder.

Sinto saudade até de quando o romper do ano era um evento emocionante pelo apagar das luzes; do São João com as ruas tomadas por fogueiras, fazendo os olhos arder; os adultos soltando bomba canoa, bomba bujão, e a molecada fazendo festa com ratinho, chuveirinho e bomba palito.

O balão voando lá no alto, e a gente com espelho na mão cantando “cai, cai, balão!”.

Sinto saudade de tomar Baré Cola com pé de moleque, bolo de sardinha, broa de milho, mariola e tareco. De parar em frente à TV para ver Ayrton Senna dando show nas pistas ou Os Trapalhões fazendo graça.

Saudade de um tempo em que as pessoas tinham vergonha, respeitavam e se davam ao respeito, e que comportamentos da vida privada ou preferências de quatro paredes não eram atos públicos a provocar e afrontar.

Como faz falta aquele tempo em que os mais novos tinham que respeitar os mais velhos; em que não se passava pela cabeça de ninguém que professores tentariam colocar caraminhola na cabeça das crianças; em que a gente voltava da escola andando, sozinhos, sem que o mal nos ameaçasse a cada esquina.

Sinto saudade das coisas e das pessoas, dos hábitos e dos costumes. Daquilo que nunca mais será como foi e daquilo que nunca mais será de jeito nenhum.

A saudade não diminui e quanto mais vivermos, mais saudades teremos. E um dia, incerto porém certeiro, a gente também haverá de virar saudade.

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