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Tinta que não se apaga - Uma homenagem e uma despedida ao Jornal da Paraíba

Ontem, aziago Dia do Jornalista, o desenlace esperado de uma morte anunciada foi confirmado. Após 45 anos de vida, o Jornal da Paraíba dará seu último suspiro no domingo que vem. É o fim, triste fim, de quase meio século do impresso que nasceu em Campina e, agora, sucumbe à crise, aos custos elevados, à alta do papel, à força da mídia eletrônica e tantos fatores outros.

Não cabe aqui tentar imiscuir-nos em questões administrativas. O jornal é um negócio, um empreendimento, e as decisões empresariais podem até ser criticadas, mas não revertidas. Talvez nem mesmo condenadas.

O fato é que o destino do Jornal da Paraíba equivale-se ao caso de um enfermo terminal. Todos sabíamos que estava nos últimos suspiros, mas, nem mesmo essa certeza minora a tristeza quando confirmado o fim.

A perda vai muito além da deplorável realidade de uma centena de trabalhadores desempregados, justamente em um momento tão cruel. A cidade perde, o Estado perde e se ressente pelo fechamento de um jornal que documentava o nosso dia a dia.

Sim, porque o impresso é um cronista da vida cotidiana, é um documento histórico gravado todos os dias na linguagem do presente. É um registro dos nossos feitos, dos nossos embates, das querelas políticas que, somadas, fazem parte da história, dos causos e casos, dos crimes que não podem ser esquecidos. O jornal impresso é quase uma ata a documentar o viver da sociedade.

Logo, sua ausência deixará em brancos as páginas que no futuro seriam relíquias preciosas da alma dos paraibanos. Foi assim com o Diário da Borborema, pior, encerrado de sopetão, sem aviso prévio, num tristemente inesquecível primeiro de fevereiro de 2012. Nem deixaram o DB escrever a história daquela eleição, assim como agora não deixarão o JP documentar o pleito que se aproxima.

A formação dos jornalistas, já precária e precarizada por uma decisão criminosa do Supremo Tribunal Federal, que permitiu a qualquer semianalfabeto requerer o registro da profissão, está agora ainda mais comprometida, porque o jornal impresso é uma extensão fundamental da faculdade. É no impresso, escrevendo, que o jornalista desenvolve a teoria e aprende a prática. As redações dos jornais impressos estão para os jornalistas como as residências médicas para os iniciantes na medicina.

Agora, resta esperar a última edição, as folhas da despedida que sairão do prelo nesse fim de semana. Resta acenar aos colegas de profissão, com a experiência de quem viveu – e eu vivi – de dentro o fechamento de um jornal, o Diário da Borborema.

E, mais que isso, mesmo em meio à tristeza, elevar um apelo aos proprietários do JP. Um apelo para que prestem um relevante serviço aos paraibanos, compreendendo que o acervo do jornal é um patrimônio legitimamente público. Que os arquivos destes 45 anos sejam entregues à academia: em João Pessoa à Universidade Federal da Paraíba; em Campina Grande, à nossa Universidade Estadual da Paraíba. Porque ali, eles ficarão guardados, protegidos, mas, o que é indispensável, acessíveis.

Que cedam ao povo paraibano esse acervo, os cadernos dos 45 anos do Jornal da Paraíba. Só assim ele será, para o pesquisador do futuro, uma janela aberta para o passado, e, mesmo inativo, mesmo silente sobre os dias presentes, permanecerá vivo como um elo capaz de unir os tempos.

E em nós ficará a saudade; em nós, que um dia tivemos a honra de ver nossos nomes assinando reportagens no Jornal da Paraíba (assim como no Diário da Borborema); a nós, cujos olhos brilharam ao encontrar na capa, na manchete principal, a matéria que levava nosso nome; em nós ficarão a tristeza e a honra. A tristeza pelo fim do jornal, a honra por ter feito parte de uma história que não poderá ser apagada.

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