Opinião: Voto distrital é oficialização do curral eleitoral

Se o cidadão e a sociedade civil organizada em geral não ficarem atentos e mobilizados, a reforma política que tramita no Congresso Nacional tem tudo para resultar em uma emenda pior que o soneto.

E uma das matérias mais danosas aos municípios é o chamado voto distrital. O projeto que institui o sistema para cidades com mais de duzentos mil eleitores, caso de Campina Grande, foi aprovado no último dia 22 no Senado.

Pelo modelo, o município será dividido em espaços denominados distritos, conforme o número de vagas da Câmara de Vereadores. Assim, por exemplo, Campina Grande, que possui 23 vereadores, seria dividida em 23 distritos.

Os candidatos concorreriam por seus distritos, e seriam eleitos de forma majoritária, ou seja, o mais votado em cada setor garantiria assento no legislativo, tendo um suplente.

Os defensores deste modelo apontam como principais vantagens a maior proximidade do eleitor com o candidato eleito, o que, em tese, facilitaria o contato permanente e o acompanhamento do desempenho do parlamentar.

Outro benefício seria o fato de todos os setores de cada cidade elegerem representantes, havendo, assim, uma representatividade mais efetiva, objetiva e supostamente mais eficiente. Outro argumento é que as campanhas seriam mais baratas.

No entanto, ainda que admitíssemos todas essas vantagens elencadas, o fato evidente é que o voto distrital nos municípios tornaria a disputa, hoje já profundamente elitizada, efetivamente fechada para qualquer postulante que não pertença a uma oligarquia.

No caso de Campina Grande, já estamos vivenciando um novo recrudescimento do contínuo predomínio familiar na Casa de Félix Araújo, fenômeno que, independente de quaisquer alterações no sistema eleitoral, já tende a se agravar em 2016, quando jovens imberbes dos tradicionais clãs políticos locais deverão ter reserva garantida em boa parte das cadeiras do legislativo mirim.

Assim como aconteceu com a eleição de Pedro Cunha Lima para a Câmara Federal em 2014, com Wilson Filho e Hugo Motta para a mesma Câmara em 2010, e com Bruno Cunha Lima para vereador em 2012, só para citar alguns exemplos, 2016 deverá trazer um grupo de jovens desprovidos de méritos ou trajetórias pessoais que, todavia, garantirão facilmente vaga no parlamento campinense com base única e exclusivamente no sobrenome.

Herdeiros das famílias Ribeiro, Cunha Lima e Vital do Rêgo, que há quatro décadas se engalfinham pelo comando político local, deverão ser conduzidos à CMCG no ano que vem.

O famigerado voto distrital apenas agravará essa situação, oficializando e maximizando o padrão alarmante de domínio territorial ainda em voga cá por estas bandas. 

O que eles idealmente chamam de voto distrital lá em Brasília, aqui a gente conhece como curral eleitoral. Com direito a coronel, clientelismo barato e eleitor marcado feito gado. Portanto, senhores congressistas, não piorem o que já é péssimo!

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