Paira uma tristeza profunda: Adeus, Manoel Monteiro


O prolongamento do sumiço de Manoel Monteiro, melhor e maior poeta brasileiro da atualidade, já prenunciava más notícias. Mas, a esperança, teimosa, buscava antever outro desfecho. E, de fato, soa inacreditável que o Manoel Monteiro, o grande Manoel Monteiro, tenha partido desta forma.

Há muito não o via, mas jamais poderia esquecer os dias em que, na companhia de Márcio Santana e Mica Guimarães, tive a honra indizível de contar com Manoel como parceiro de um belo projeto, que teve vida curta, mas de sucesso: a Cordeletras. Foi ele o nosso primeiro entrevistado, numa conversa bem ao seu estilo, carregada de afirmações fortes.

E, para nossa surpresa, o grande Manoel aceitou ser colunista da revista. Durante alguns meses partilhamos de uma excelente convivência regular. Quase semanalmente íamos, Márcio e eu, à casa do poeta, receber seu artigo datilografado e ouvir suas histórias. Monteiro, que como todo nordestino das antigas, deve ter tomado água de chocalho, falava por horas.

A poesia de Manoel Monteiro era rica em forma e conteúdo. Seu cordel assumia deliberadamente um caráter didático. Suas opiniões eram fortes e não raro controversas. O bardo era contundente, firme, muitas vezes duro em suas opiniões. Mas, no contato pessoal, sempre extremamente cordato, acessível, um sujeito quase igual a nós – com a diferença de ser um gênio.

Paira uma tristeza profunda. O Brasil precisa reconhecer o trabalho brilhante desse poeta maior. Campina Grande tem que prestar tributo a esse campinense nascido em Bezerros, interior de Pernambuco, que honrou o nome e a tradição da Rainha da Borborema. Campina está menos grande.

Sem José Alves Sobrinho e, agora, sem Manoel Monteiro, encerra-se um ciclo, finda-se uma era e abre-se um vácuo impreenchível. Manoel era o maior. Pena que esse último verso tenha sido tão dissonante, velho poeta! Essa tristeza não rende uma rima e a nossa alma alquebrada renega a métrica.

Mesmo assim, você é da estirpe dos que nasceram para a eternidade. Hoje e amanhã, leremos teus cordéis e te aplaudiremos. Não o poeta morto, mas o poeta vivo em sua obra imorredoura. Agora, porém, estamos profundamente tristes.

Vai com Deus, Manoel.

Um comentário

Medeiros Braga disse...

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Manoel Monteiro morreu,
A tristeza veio estar,
Sem chover, Campina Grande
Eis em água a se banhar,
É a Serra da Borborema
Que não para de chorar.

Inspirado num amor
Muito leal a Campina
Ele impôs com sua verve
Uma marca genuína
Se firmando como símbolo
Da poesia nordestina.”

Medeiros Braga

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