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Conto: Natal no recanto de um Sertão

O dia mal começara a clarear, e Damião sentiu o conhecido sacolejo de todas as manhãs nos punhos da rede. Algumas vezes estava sonhando, quando era, assim, bruscamente trazido de volta à realidade, despertando meio confuso, até conseguir separar o sonho de instantes antes do raiar de mais um dia da sua vida. A voz grave e cheia de autoridade do pai tratava de desestimular qualquer tentativa de um cochilo a mais.

- Acorda, Damião! Tá na hora de ir pro roçado!
.
Levantava depressa, calçava as velhas alpercatas e dobrava a rede. Não havia necessidade de trocar de roupa, afinal, aquela com que dormira seria a mesma de trabalhar. Dezembro quente, a camisa molhada de suor, mas nem pensava em dormir sem ela, para que "o anjo da guarda não desaparte", conforme rezavam as superstições que aprendera com a mãe. Na cozinha, encontra o pai já sentado tomando um copo de café e fumando um cigarro de fumo-de-rolo, e a mãe abanando o fogão a lenha. Estende a mão esquerda:

- A bença, mãe; a bença, pai...
- Com essa mão, pagão? Quantas vêis já te falei? Vai ficar homi barbado sem aprender que quem pede bença com a mão esquerda é pagão?

Damião, encabulado, corrige o gesto, e enfim ouve o “Deus te abençoe” dos pais. Destampa o pote, pega o caneco, enche de água, com uma parte lava o rosto e bebe o restante. Não se fala em escovar os dentes, muito menos em creme dental. Pentear os cabelos, não precisa, porque o corte deixa baixinho, quase careca, à moda local, para combater os piolhos.

- Bora cumer, e debandar pra roça que aquele mato tá com a gota!, ordena o pai. – Chega cumer!

Damião senta-se no tamborete feito de pau de angico, e engole rápido um prato de cuscuz com leite e um copo grande de café. Comida de sustança para agüentar o rojão do campo. Seus irmãos, mais velhos, também terminam o café. As irmãs ajudam a mãe nos afazeres da casa. São oito filhos no total, e deveriam ser doze, não fossem os quatro anjinhos enterrados no cemitério ali perto. Finda a primeira refeição do dia, o sol já está claro, e cada um dos rapazes pega sua enxada, seguindo o pai em fila indiana pelo caminho estreito no rumo do pequeno roçado.

Damião tem as mãos grossas, cheias de calo. Mas, encontra-se bastante acostumado com a labuta diária. Antônio, seu irmão mais velho, questiona:

- Pai, a gente vai trabalhar o dia todim?
- Pru quê?
- Nada, porque hoje né dia de natal, né? Na cidade né inferiado?
- Oxe, deixe de vadiagem! O povo da cidade é morto de priguiça. Vamo trabaiar o dia todim, sim, sinhô!
- É que eu pensava que era dia santo...
- Santo é todo dia! Isso é bestera de tua mãe.
- Será que ela vai pra missa de noite? Eu posso ir? Né a missa do galo, né?
- Ela deve ir. Eu num vô. E eu sei qual é a missa que tu quer assistir lá. Mas, vai, já tás cavalo véi mermo. Só num me arrume encrenca nem chegue em casa bebo. E amanhã de manhã tem serviço!

José e Raimundo, idades próximas ao irmão mais velho, se animam:

- Pai, o sinhô deixa a gente ir com Toin?
- Eita! Vão, mas já sabem, né?

Damião fica quieto. Não pensa em pedir para ir também, afinal, sabe que não pode. Não tem idade para essas estripulias. Tem apenas dez anos. Não estuda porque a escola é longe demais e precisa ajudar o pai. Precisa arrancar mato, cavar lerão, plantar maniva de macaxeira. Não tem certeza do que venha a ser aquela data:

- Pai, o que é natal?
- É o dia em que nasceu nosso sinhô.
- Ah...
Observando a seca caatinga, segue seu caminho, mãos que não sabem formar letras, mãos que não têm tempo pra brincar, mãos de um menino, mãos hábeis na enxada com cabo adaptado para o corpo franzino. Naquela noite não haverá ceia especial, não haverá peru, nem árvore de natal, nem presentes. Não se verá meia na janela, afinal, quem não tem sapato vai ter meia? Papai Noel não é esperado. 

Espera-se é chuva, pra que não falte a farinha, o feijão, o cuscuz, o leite, o dinheiro para a charque, a água no pote. Para que as mangueiras, goiabeiras e jabuticabeiras tenham boa safra, e Damião possa pendurar-se em seus galhos e fartar-se com seus frutos doces. Quem sabe o Deus-menino que nasceu naquele dia ajude para que isso possa acontecer? É só o que Damião deseja. É um feliz Natal.

Lenildo Ferreira

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