Adeus...


Na última sexta-feira, 06, sepultei, definitivamente, meu pai. Sim, ao longo dos meus 32 anos, ele já havia “morrido” algumas vezes, mas eu, repetidamente, acabava o trazendo de volta à (minha) vida. Sua ausência não será sentida, porque esta condição sempre foi regra. Sua presença, rara, sempre foi tumultuada, convulsionando nossas vidas, provocando desgostos, tristezas e aflições.

No entanto, tudo isso não implica em dizer que sua partida nos foi indiferente. Muito pelo contrário! Até agora, sou incapaz de descrever os sentimentos que me marcam desde a última quinta-feira à tarde, quando recebi a notícia inesperada e quando, minutos depois, toquei seu corpo inerte sobre a cama de seu quarto solitário de sua casa vazia e desprovida de vida.

Há uma dor crônica no fundo da alma, a tristeza de ver tudo acabar assim, contrariando as esperanças, que já eram cada vez mais escassas, de que pelo menos o final poderia ser diferente. Há a lembrança do último Natal, a ceia em minha casa, do mais recente aniversário de Marina... Raríssimos momentos agradáveis que ainda precederiam mais um desgosto, o último de uma lista incontável...

Meu pai morreu sozinho, embora a poucos metros das casas dos parentes mais próximos, todos que dezenas de vezes o perdoaram e tornaram a abrir as portas de suas casas e suas vidas para um homem que insistia em ser só e inimigo do mundo. Foi uma vida triste, por escolha repetida, mas que, a despeito do desfecho final, encontrou a misericórdia do Senhor ao poder dar o último suspiro em sua própria cama.

No final, de tantos filhos que ajudou a por no mundo, sem ter de fato cumprido o mister de pai com nenhum, restou a mim e minha irmã mais velha o cuidar dos últimos e tristes detalhes. Pura e triste alegoria da vida, afinal, fomos justamente nós, em períodos alternados, que ainda o recebemos, ainda o aceitamos, ainda o estendemos as mãos...

Os demais não poderiam, em hipótese alguma, ser reprovados por terem se mantido, de um jeito ou de outro, distantes nessa última hora, porque, ainda menos que nós, jamais receberam qualquer gesto paterno. Mas, eu sei que, no íntimo, sentiram também a mesma dor impossível de ser explicada nesse instante derradeiro de uma despedida definitiva.

A realidade ainda não foi devidamente absorvida. A ficha ainda não caiu totalmente. A sensação é de que ele ainda está ali, tão perto e tão longe, como foi durante toda a vida. Perdemos nosso pai, sendo que nunca o tivemos. E isso torna nossa tristeza ainda maior.

Eu, de minha parte, sei que o amei mesmo em meio a algumas das aflições inomináveis que nos impôs. Sei que insisti, ao ponto de, por duas vezes, abandonar tudo para tentar ficar ao seu lado, esforços que sempre restaram malsucedidos e dolorosos. Sei que sempre o quis como pai, embora ele pouco nos tenha quisto como filhos...

Sei que demorará muito para que processe todos esses sentimentos tão confusos. Sei que ainda precisarei de pelo menos mais dois ou três dias para poder colocar a cabeça minimamente em ordem, a fim de retomar a vida e as responsabilidades cotidianas. Quem me olha, não diz o que sinto. É que aprendi, ao longo dos últimos 32 anos, a fingir que sua ausência não me doía.

Vai em paz, José Anacleto Ferreira! Vai nos braços da misericórdia de um Pai que é tão bom que te poupou do prolongamento de uma vida de solidão cada vez mais abissal e terrível, de uma depressão construída pelas tuas próprias mãos; que te livrou de um final violento, que te chamou para a eternidade, onde, não tenho dúvidas, encontrarás a paz na Graça inaudita e na qual, um dia, nos reencontraremos – desta vez sem receios, sem mágoas, sem feridas. Vai em paz... pai!

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