Félix Araújo: 60 anos de um legado imorredouro

O dia 27 de julho deveria ser feriado em Campina Grande, data de profundo caráter cívico, ao rememorar e prestar tributo ao legado de Félix de Souza Araújo, um jovem que, tendo partido para a eternidade quando contava pouco mais de trinta anos, viveu o que muitos não viveriam em muitas vidas.

Félix viveu – e morreu – movido por um ideal que parecia reger cada ato, cada passo da sua existência. Ideal capaz de levá-lo a um impressionante e impensável esforço para fazer-se parte de uma guerra mundial, a fim de, com risco da própria vida, tão somente servir à causa da humanidade.

Em Félix, o ideal humanista jamais foi apenas um mero discurso de intelectual, teoria para respaldar arrazoados ou argumento para preencher espaços em debates anódinos. Não! Se o mundo precisava extirpar o demoníaco nazismo, e se isso precisava ser feito à força, lá se foi um franzino e frágil jovem fazer-se combatente na Europa em guerra.

Em Félix, a intelectualidade jamais foi ferramenta para blasonar, alardear loas em culto próprio, medir conhecimentos e subir aos cumes da vaidade vã, vadia e fútil. Era intelectual prático, tribuno das multidões, de discursos que incendiavam o peito das gentes, inclusive os mais humildes e incultos, porque vinha da alma a tocar as almas.

Em Félix, o verbo brilhante jamais foi armadilha para envolver incautos e aprisioná-los em artimanhas políticas. Seu brado era pela liberdade de consciência, sem a qual ninguém pode ser livre. Era uma convocação à cidadania, ao direito humano de ser senhor da própria vida. Era um convite ardoroso à união das massas na convergência de um mesmo desiderato.

Em Félix, sequer a poesia jamais foi apenas um apanhado de versos para encantar os cultos e sensíveis. Aqueles poemas das noites insones a vigiar a agonia do pai, aqueles versos nascidos nas tardes quentes de Cabaceiras, aquelas letras emanadas nas manhãs frescas da Rainha da Borborema eram, acima de tudo, um canto da alma dolorida, um verter de sentimentos de um coração em chamas, um clamor espiritual erguido aos Céus.

Félix Araújo tombou num longínquo 1953. Mas, vive! Vive num legado imorredouro, vive no viver cotidiano de Campina Grande, revive nas consciências que ainda hoje desperta, nos ideais que inspira, nas histórias que contaremos, com orgulho, aos nossos filhos sobre um jovem humilde que precisou de apenas trinta anos para inscrever, com tinta indelével e fulgurante, seu nome na primeira página da bela história de uma terra que é única entre muitas.

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