Crônica: Ontem, éramos meninos

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Embora o tempo deixe marcas em nosso corpo e em nossa alma, a gente não vê nem sente o tempo passar. Quem está a nossa volta deve perceber, mas nós mesmos, olhando e sentindo nosso mundo de dentro para fora, mal notamos o quanto mudamos. E como mudamos! Um dia, nos julgamos eternos. Éramos de aço. Corríamos pelos campinhos atrás de uma bola, sem saber o que era falta de fôlego; subíamos e descíamos as árvores sem temer alguma dor na coluna.

Agora, os cabelos lentamente começam a pintar-se de branco, os olhos não enxergam mais as letras miúdas no papel. E notem que ainda somos jovens, praticamente apenas iniciando a vida adulta, esta das responsabilidades de chefes de família. Mas, ontem, éramos meninos.

Olho meus amigos, e eles são o espelho de toda essa mudança. Vejo Dado, e lembro das noites passadas em claro, assistindo filme, rindo à toa; dos almoços no quintal de Dona Margarida; das cantorias de violão, do milho assando nas brasas vermelhas de uma fogueira em noite de São João. Dado era só um pós-moleque com cara de matuto. Hoje, é homem casado, é pai, trabalhando cinqüenta horas por semana para sustentar a família. Agora, o tempo para uma conversa é marcado no relógio, pré-agendado no calendário.

Vejo Marco, o mais velho, mas que ainda ontem era um jovem de vinte e poucos anos que virou pai de família cedo. Enfrentou as dores de uma enfermidade e os sofrimentos de uma cama de hospital. Quase morreu. Agora, bancado pelo INSS, é o mais solto de todos nós, mas já faz jus ao apelido que nem sei quando lhe demos: “véi”. Olho as fotos, e lá estamos, ele, Dado e eu, num dos muitos almoços, numa das viagens ao Sítio Marinho, cantando e tocando violão, fazendo poesia. Hoje, falta tempo para um bate papo, embora haja tanto a dizer.

Vejo Jefte, que inventou de mudar para o Rio de Janeiro, casou e agora é pai de uma menininha que é a cara dele quando era guri e, cabeludo, parecia uma menina. E para onde foram as noitadas de violão, as risadas por qualquer bobagem, as caminhadas de farofeiros nas praias de João Pessoa?
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Vejo Márcio, um dos sujeitos mais inteligentes e mais preguiçosos que já conheci. Quantas noites a gente virou fazendo matéria, editando revista, elaborando mil projetos? E quantos daqueles terríveis e monstruosos sanduíches devoramos às margens do Açude Novo? E aquela gaita terrível que ele, para meu tormento, tocava enquanto trabalhávamos? E os desafios poéticos, sextilhas e decassílabos? Tudo passou, lá se foi o “Gaiolão” para Sergipe, casou e vai ser pai pela segunda vez. Imaginem aqueles quase dois metros de altura, inteligência e preguiça um pai!

Parece mesmo que foi ontem que eu palmilhava, ao lado de Alessandro e Salomão, a BR 230, rumo a Pedra Lavrada. Empreitada de doidos! Lá vou eu e o cabeçudo Saló, de bicicleta, quilômetros desertos, sem a garantia de um remendo de pneu, para a zona rural de Boa Vista. Lá estamos nós no alto de uma serra ou mergulhando num barreiro em Currais Novos. Quantos serrotes não subimos? Quantas picadas no meio da caatinga não trilhamos? Estivemos em Mororó, em Lastro.

Quantas piadas, quantas canções, quantas orações.. Quantos sonhos, quantos projetos futuros... de um futuro que jamais existiria. Salomão morreu, Alessandro sumiu, ficou mais alesado do que já era. Tudo ficou para trás, não tem jeito. O ontem é passado, como o hoje logo será. Só restam as fotos, as lembranças e a saudade. As fotos desbotam, as lembranças embotam, mas a saudade só faz aumentar.

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