Judas, os vereadores e o povo

O artigo abaixo foi publicado no Diário Político, coluna que assinávamos no saudoso Diário da Borborema, em 21 de abril de 2011. Sendo este um momento de eleições, julgo pertinente republicar o texto:

Segundo a tradição católica, ontem foi quarta-feira de trevas. E, se a escuridão lembra a noite, e a noite é boa para dormir, a sessão de ontem na Câmara de Campina Grande foi de dar sono. A maioria dos parlamentares campinenses, como é de praxe, resolveu acrescer o feriadão em mais um dia, saindo em revoada para seus sítios e casas de praia. Afinal, se Judas Iscariotes se enforcou na sexta, por que os vereadores não iam enforcar a quarta? Em plenário do começo ao fim da sessão, estiveram apenas Fernando Carvalho, Olímpio Oliveira, Metuselá Agra, Rodolfo Rodrigues, Antônio Pereira e João Dantas.

Este último, por sinal, o único da oposição. Jóia Germano saiu antes do fim, e Pimentel Filho, que acabou de se recuperar de uma cirurgia, chegou depois do fim. Enquanto isso, o presidente Nelson Gomes Filho estava na Câmara, mas não participou da sessão porque promovia nos bastidores um inventário para saber o tamanho do prejuízo causado por marginais que arrombaram o prédio e furtaram objetos de sua sala.

Do escritório do presidente foram levados alguns equipamentos, como computadores. Alguém disse que quem esteve ontem na Casa de Félix Araújo e soube do roubo, vendo o plenário vazio poderia achar que os meliantes haviam levado também alguns vereadores como parte dos despojos. Mas, o que iam eles fazer com alguns vereadores usados, entre os quais, por sinal, três ou quatro nem funcionam?

Seria cômico se não fosse vergonhoso esse profundo desinteresse e alheamento de boa parte dos parlamentares campinenses, que desonram o mandato outorgado pelo povo e vilipendiam a nobreza ideal da função. O pior de tudo é que o povo se mantém completamente desconhecedor dessa realidade e a verdade é que muitos dos nossos eleitores, ainda que conhecessem o cotidiano do legislativo campinense, infelizmente não deixariam de voltar a sufragar em 2012 alguns nomes que jamais deveriam ter constado do parlamento mirim municipal.

Acontece que o povo é seu próprio Judas.

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