Eleições UEPB: Mônica Maria planeja "quebrar o modelo de gestão predominante há 20 anos"

Mônica Maria Pereira da Silva está na Universidade Estadual da Paraíba há 19 anos. Graduada em Ciências Biológicas, mestra em Desenvolvimento e Meio Ambiente e doutora em Recursos Naturais. Leciona no Departamento de Ciências Biológicas, e também no Mestrado e Doutorado de Recursos Naturais e Tecnologia Ambiental. Atualmente é professora e coordenadora de extensão, com cargo não comissionado, do Departamento de Biologia. É a quarta entrevistada da série com os reitoráveis publicadas em A União e reproduzida aqui no blog. 

Porque a senhora quer ser reitora da UEPB? Qual a sua história com a Estadual?

A nossa candidatura resultou de uma indicação do coletivo formado por professores, técnicos administrativos e alunos. Lutamos para o reconhecimento e valorização da UEPB, para a autonomia de fato e de direito e ancorada pela legislação vigente. A indicação dos nossos nomes à Reitoria da UEPB é conseqüência da nossa militância, da nossa qualificação profissional, do nosso compromisso irrestrito com a UEPB e com a sociedade. O meu envolvimento com a UEPB iniciou no momento em que ingressei no curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e efetivou-se quando passei no concurso público e tornei-me professora desta universidade. São 19 anos de luta.

Caso a senhora seja eleita reitora da UEPB, o que aponta como principal desafio?

O nosso principal desafio constitui em quebrar o modelo de gestão predominante há 20 anos na UEPB e consolidado nestes dois últimos reitorados, de modo a implantar um novo modelo de gestão que aponte sistematicamente para o combate ao fisiologismo, patrulhamento ideológico, a falta de ética, transparência e de zelo com os recursos públicos.

A senhora pretende abrir novos campi? É possível a universidade avançar pelo estado sem comprometer a qualidade do ensino?

Nós temos um grande desafio: resolver o caos decorrente de sucessivos acordos políticos e de tomada de decisão sem planejamento e participação dos diferentes segmentos que formam a UEPB. Podemos citar como exemplo as condições de infraestrutura dos campi que foram instalados no interior e na própria capital. Vamos administrar os recursos dentro da plataforma responsável, equitativa, dentro da realidade conjuntural da Paraíba e tendo por alicerce o princípio da sustentabilidade.

A UEPB tem problemas relacionados a baixo desempenho de alguns cursos? Quais?

Nós temos problemas, o que não é diferente em outras universidades. Grande parte dos problemas relacionada ao baixo desempenho reflete a educação pública brasileira. A UEPB tem como egressos 50% de alunos oriundos da rede pública e as condições que lhes são oferecidas comumente não propiciam mitigar as lacunas advindas da educação básica. A falta de infraestrutura e a precarização do trabalho docente e dos técnicos e as condições de permanência na educação superior contribuem para o baixo desempenho de alguns cursos.

Existe um projeto de otimização da infraestrutura do campus de Bodocongó. É possível tornar esse projeto uma realidade?

Presenciamos um projeto de construção de uma central de aula bastante divulgada,, mas na prática compreende uma obra de campanha que não foi discutida com os segmentos da UEPB e não atenderá as suas reais demandas. Mas, ao assumirmos a reitoria, temos que administrar e viabilizar as melhores condições de contemplar os eixos norteadores do processo educaciona. Logo, será possível tornar esse projeto uma realidade, porém, numa conjuntura administrativa diferente da que está posta.

É possível manter uma política de valorização do professor e dos servidores técnicos sem estourar o orçamento?

Torna-se difícil responder quando não existe dados transparentes em relação à folha de pagamento. Inclusive, temos uma discrepância grande com dados da folha do Tribunal de Contas, que mostra um perfil, e os dados apresentados pela universidade mostram outro perfil. Mas, na realidade, a política de valorização, seja de professores ou servidores técnicos, passa por uma capacitação, por discussão do plano de cargos e carreiras, e principalmente, por uma redução de cargos comissionados e verificação do nepotismo.

Caso seja eleita, ao assumir tem planos para promover algum enxugamento da estrutura da universidade, sobretudo no que se refere a pessoal comissionado e terceirizado?

Para que se possa enxugar as despesas, é necessário primeiramente um levantamento. Hoje não temos esses dados concretos. Pretendemos instalar o controle social, que, para ser implantado, deve ser feito o levantamento. Se houver a necessidade de enxugarmos, iremos fazer.

Como a senhora analisa a atual gestão, que tem à frente, desde 2004, a reitora Marlene Alves?

A atual gestão, diferentemente do que era esperado, já que a nossa gestora veio do movimento sindical, esqueceu-se de uma coisa: para se trabalhar em uma universidade é necessário o diálogo. As prioridades não podem ser discutidas apenas em nível pró-reitores, deve haver a conversa com os centros, os departamentos e a sociedade. O que ocorreu conosco foi que a atual gestão foi pautada em acordos políticos.

Quem a senhora apoiou nas eleições para reitor de 2004 e 2008?

Em 2004, apoiei o professor Valderí. Em 2008, não tivemos direito de escolha, e a chapa foi única. A maior parte de nossos colegas estava em doutorado, implicando a ausência de muitos.

Há, nesse momento, um desgaste na relação entre o Governo do Estado e a reitora Marlene Alves. Como a senhora analisa essa crise?

A crise resultou de acordos políticos e descumprimento da legislação. É possível resolver, rompendo os paradigmas de gestão atual. Precisamos mostrar ao governador que queremos respeito, mas para isso também precisamos respeitá-lo. Ambos devem se tratar com respeito.

O fato de a reitora Marlene Alves ser pré-candidata a prefeita de Campina Grande interfere de alguma forma nessa crise?

Acredito que a quebra dos acordos políticos surgiram a partir da candidatura. Em 2004, disse pessoalmente à reitora: “É muito difícil a senhora separar a sindicalista da reitora, a pessoa que está vinculada ao PC do B do cargo de reitora. E nesse instante da crise foi apontado isto. O pensamento e o desejo pessoal confundiram-se com o pensamento coletivo.

Caso seja eleita, como a senhora pretende contornar essa crise de relações com o governo? É possível chegar a um consenso?

Falar em consenso em universo diferente é complicado, no entanto, deve haver respeito de ambas as partes. Estamos prontos para romper com esses paradigmas, afinal, nós detemos a autonomia didática, científica, de gestão e financeira.

Falta transparência na UEPB? É possível tornar a administração mais transparente?

A falta de transparência é visualizada nos números, nos dados expostos. Além disso, muitos acontecimentos causam preocupação, como, por exemplo: Quantas pessoas ocupam cargos comissionados na UEPB? Para quê servem esses cargos? Por que eles foram colocados? Outro dado importante: Os cursos de pós-graduação foram discutidos com a comunidade universitária? Atendem à demanda da sociedade? São esses os dados que mostram a transparência ou não e que devem ser revistos.

No ano passado e também este ano, houve sérios debates no âmbito da universidade diante de propostas de greve. Qual foi sua posição nestes dois momentos? Foi contra ou a favor da greve?

Em 2011, tivemos acesso à real situação da universidade e com esse acesso solicitamos assembleias. Em primeiro momento, a greve não era em benefício dos docentes, o aumento de salário. O intuito era discutir assuntos para a universidade. Neste momento, fomos a favor da greve. Em 2012, só o aumento salarial não seria justificativa, o que nos fez ser contra a greve. Sabemos que os técnicos administrativos entraram em greve, sendo justa. Afinal, a categoria está sem o repasse real do reajuste salarial.

O processo eleitoral municipal, com eleição para prefeito e vereador, de alguma forma tem interferido na UEPB nos últimos meses? E pode estar interferido no processo para eleição da reitoria?

O caos ficou evidenciado quando a nossa reitora se colocou como candidata. A Universidade foi bastante prejudicada quando houve conflito de interesse, a legislação não foi observada, a quebra de autonomia e quando as pessoas que estavam à frente dessa administração esqueceram o coletivo e passaram a trabalhar em prol do seu próprio desejo.

É possível manter uma campanha pela reitoria em alto nível? Essa eleição pode dividir os professores e servidores técnicos com efeitos que se prolonguem até depois do processo eleitoral?

A universidade passa por vários desafios. Realizar um processo eleitoral em conflitos e de alto nível é um deles. Até porque o processo é desigual, estamos iniciando a nossa campanha agora, mas muitos já começaram há muito tempo. Temos 16 dias pra fazer campanha. Por que essa pressa? Logicamente, a forma como o processo vem sendo conduzido aumenta o desafio de realizar uma campanha de qualidade, até porque inibe o debate. Em relação à divisão, já estamos dividimos e as cinco chapas mostram isso.

Como enxerga o futuro da UEPB a curto, médio e longo prazo?

Esse futuro depende das mudanças, como dar condição às pessoas para poderem se expressar. Comparo a universidade hoje com um feudo. Um grupo que tenta manipular todos impondo suas ideias. Temos que apostar em mudanças que podem acontecer em curto prazo. Acontecendo assim, trará em médio e em longo prazo o reconhecimento da instituição dentro e fora da Paraíba.

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