SÉRIE ELEIÇÕES MUNICIPAIS - "1947: UDN SE DIVIDE E ELPÍDIO VENCE VENEZIANO. 1951: A MAIOR DERROTA DE ARGEMIRO"

Santinhos da primeira eleição para prefeito
Passada a Velha República, com a administração municipal a cargo dos Conselhos de Intendência e os prefeitos nomeados, passada a ditadura getulista do Estado Novo, com prefeitos também nomeados, as cidades respiravam novos ares democráticos. O ano de 1947 marcou as primeiras eleições para governador, senador, suplente de senador e deputado estadual, logo em janeiro (dia 19), e para vice-governador, prefeito, vice-prefeito e vereador no dia 12 de outubro. Para o pleito municipal, a UDN despontava como favorita absoluta, praticamente imbatível.

A eleição de Oswaldo Trigueiro para o Palácio da Redenção, suplantando Alcides Carneiro (PSD), confirmava a força da União Democrática Nacional, que contava em suas fileiras com dois baluartes: o ex-governador e ex-interventor Argemiro de Figueiredo e o ministro José Américo de Almeida, este o maior expoente da política estadual, eleito senador nas eleições de janeiro, como candidato único. Na prática, Argemiro comandava a UDN, enquanto José Américo cuidava da política nacional.

A grandiosidade do partido, com poder centrado no “chefe” incontestável Argemiro, seria seu próprio mal. O ex-interventor via naquela disputa o trampolim para voltar ao Palácio da Redenção, nas eleições de 1950. E resolveu investir numa figura de sua total confiança, o cunhado, Veneziano Vital do Rêgo. A decisão teve o poder de contrariar todo o partido, mas, ainda assim, Argemiro fincou pé, irredutível e o resultado foi uma cisão.

Como havia dois caciques, e os dois há tempos já não se bicavam, embora permanecendo sob a mesma legenda, na prática a UDN era dividida em duas alas, argemirista e americista. Mais ou menos como o que ocorreu com o PMDB em 2008, dividindo-se entre maranhistas e ronaldistas, e com o PSDB em 2010, fracionado entre ciceristas e cassistas. Ante a teima de Argemiro, o grupo ligado a José Américo resolveu apoiar um candidato de oposição, e o escolhido acabou sendo o médico Elpídio de Almeida, que era udenista americista, e sairia candidato pela Coligação Democrática Campinense, encabeçada pelo PDC e o PSD.

Segundo o historiador Josué Sylvestre, durante a campanha, aliados mais inflamados de Elpídio tratavam o “major” Veneziano, dada a sua condição de homem de poucas letras e de fazendo, como “vaqueiro”, termo usado com conotação depreciativa. Era o vaqueiro contra o doutor, segundo proclamavam. Diante do ataque, Argemiro saiu em defesa do cunhado. “Eu o afirmo capaz. Pela inteligência, probidade, dinamismo e humildade. Serei seu auxiliar na administração. Dar-lhe-ei o concurso ininterrupto da minha experiência de vida pública. Os seus erros serão meus”, afirmou o “chefe” no primeiro dos seus célebres manifestos ao povo de Campina Grande.

Por outro lado, uma tentativa de um aliado de Veneziano de desqualificar Elpídio através do histórico bairrismo campinense acabou saindo pela culatra. O médico foi taxado, em tom pejorativo, de “forasteiro”, por ser natural de Areia. A “jogada” foi tão equivocada que esqueceu, inclusive, que Veneziano nem sequer era paraibano – nasceu em Bom Jardim, Pernambuco. A troça malfeita acabou se transformando em arma para os adeptos de Elpídio de Almeida, que assumiu-se um forasteiro que trabalhava pelo bem de Campina.

Naquela eleição, o jovem Félix Araújo, com 24 anos, teria importante papel no “marketing” de Elpídio. Segundo Josué Sylvestre, além de organizar eventos, como passeatas, Félix escreveu a letra do “jingle” do candidato, tendo como base a melodia do hino de um candidato a governador em Pernambuco décadas antes, a chamada Vassourinha. “De pé, oh, pobres! Oh, vitimas da sorte / Com Deus e o povo, contra a opressão / Elpídio de Almeida é o candidato / Da pobreza e da religião. Pelo povo, contra a fome / Se levanta um grande nome”, dizia o estribilho da música que, com as necessárias adaptações, seria usada três anos depois, na campanha de José Américo para o Governo do Estado, quando o ex-ministro derrotaria Argemiro de Figueiredo.

O hino composto por Félix seria, portanto, de amargas lembranças para Argemiro que, apesar de todo o seu poder, viu Elpídio de Almeida vencer seu candidato, o major Veneziano Vital do Rêgo, no dia 12 de outubro de 1947, por 8.142 votos contra 6.456, segundo dados do TRE. Na disputa pelo cargo de vice-prefeito, que também era eleito pelo voto direto, venceu o companheiro de chapa de Elpídio, o oficial do Exército Antonio Rodenbusch (Capitão Rodenbusch), que somou 8.006 sufrágios, contra 6.495 do banqueiro e industrial José de Brito Lira, companheiro de chapa de Veneziano.
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1951: A maior derrota de Argemiro

Santinho de Plínio Lemos
A derrota de 1947 foi dura de engolir para Argemiro. Passada a eleição, ele e José Américo finalmente romperam de vez, dividindo o estado entre duas forças que não cabiam na UDN. E as duas forças se confrontaram logo no pleito seguinte (1950), uma eleição violenta, em que um conflito na Praça da Bandeira no dia 09 de julho acabaria resultando em três mortes. No fim, José Américo venceu Argemiro (que perdeu até em Campina Grande) e tornou-se governador. Diante do novo fracasso, Argemiro decidiu por mais uma vez o nome à prova numa eleição municipal, desta vez saindo ele mesmo candidato a prefeito. Do outro lado, Elpídio de Almeida encerrava sua gestão com alta popularidade, inclusive já tendo garantido vaga na Câmara Federal. Para a sucessão, os partidos aliados indicaram vários nomes, mas o prefeito fixou-se, irredutivelmente, em um, o deputado federal Plínio Lemos, que, após marchas e contramarchas, mas sempre mantida a imposição de Elpídio, acabou candidato.

Como estratégia para tentar dividir a Coligação Democrática, que derrotara seu candidato em 1947 e a ele mesmo no ano anterior, Argemiro conseguiu convencer o vice-prefeito Antonio Rodenbusch, já promovido ao posto de major, a se lançar como uma terceira via. A velha raposa udenista apostava no populismo de Rodenbusch, conhecido como o “amigo dos pobres”, que se desentendera com Elpídio logo após a posse. Mas, o plano se revelaria um fiasco e o major, apesar de toda sua popularidade, receberia uma votação pífia.

E Argemiro sofreria sua maior derrota, sendo inapelavelmente batido dentro da “sua” Campina Grande. Resultado do pleito, realizado em 12 de agosto de 1951: Plínio Lemos, da coligação PL/PSD, eleito com 13.909 votos, ou 55,75%; Argemiro de Figueiredo, da UDN, 11.124 votos, ou 44,4%; Antonio Rodenbusch, do PR, irrisórios 225 votos, ou 0,89%. O eleitorado apto a votar naquele ano era de 40.393 campinenses, mas 15.135 não foram às urnas, uma abstenção de 37,47%. Para vice-prefeito, foi eleito o companheiro de chapa de Plínio, Lafayette Cavalcante, com 13.820 votos, contra 10.926 do udenista Severino Cruz e 194 do capitão Alberto de Sousa, do PR.

Pelo menos dois grandes fatores se somaram para impor aquela derrota ao ex-governador e ex-interventor estadual. A primeira delas, o sucesso popular da administração de Elpídio, que trabalhou para fazer de Plínio Lemos seu sucessor. A segunda, o incidente no ano anterior na Praça da Bandeira, num conflito entre eleitores e militantes de José Américo de Almeida, adversário de Argemiro, com a polícia. O saldo de três mortes seria imputado (injustamente, segundo o historiador Josué Sylvestre) por muitos na conta do chefe udenista, por ser aliado do governador, e, na eleição municipal, apenas um ano depois, tais feridas ainda eram recentes.

Naquele pleito de 1951, a Coligação mais uma vez entoou a “Marcha da Vitória”, que fora o hino de Elpídio de Almeida em 1947, de José Américo de Almeida (a governador) em 1950 e agora, mais uma vez adaptada por Félix Araújo, que se elegeria vereador, empolgava a campanha e a vitória de Plínio Lemos. “De pé, Campina, cidade gloriosa / Trincheira erguida, contra a opressão / De novo, na luta pelo povo / Os lenços brancos da coligação / Com Plínio Lemos a luta venceremos / Com Plínio Lemos a luta venceremos”.

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