QUADRO NEGRO

No primeiro semestre deste ano, a professora Amanda Gurgel ficou famosa após o vídeo com seu discurso durante uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, seu estado, ser publicado na internet e ganhar forte repercussão nacional.

“Estamos aceitando a condição precária da educação como uma fatalidade? Estão me colocando dentro de uma sala de aula, com um giz e um quadro, para salvar o Brasil? Sou eu a redentora do país? Não posso, não tenho condições. Muito menos com o salário que recebo. Esse salário não é suficiente para pagar nem a indumentária que os senhores e as senhoras utilizam aqui”, questionou e declarou Amanda, durante sua fala, de irrefutável contundência, diante de constrangidos deputados e auxiliares do governo local.

O depoimento da professora serviu de combustível para aquecer os debates sobre a educação no Brasil e ajudou a dar maior visibilidade ao movimento que luta para que 10% do nosso Produto Interno Bruto sejam destinados para esse segmento.

Ontem, Dia do Professor, a pergunta da categoria era: o que comemorar? Como disse Amanda Gurgel, a educação jamais foi prioridade em algum governo. E as péssimas condições do ensino público são tratadas como fatalidade, como algo que, a médio prazo, até pode melhorar, mas, jamais, mudar.

Não há interesse em mudar porque a ignorância garante o conformismo e, assim, não ameaça o status quo de depravação administrativa reinante no Brasil. Além disso, faltam recursos para a educação porque é preciso bancar a máquina voraz, custear um Congresso caro, corrupto e inoperante, manter a riqueza dos ricos e sustentar toda a corrupção nacional. Ser professor é quase um sacerdócio – com voto de pobreza. É mister vocação.

Todavia, essa perspectiva de precariedade inevitável precisa ser combatida e repelida. O ensino público não pode depender dos milagres de mal pagos e maltratados professores-sacerdotes em sala de aula. Passa da hora de mudar esse quadro negro da educação pública brasileira!

Mal geral

O professor Sizenando Leal, que foi candidato a prefeito em 2008, disse ontem que “o governo Ricardo Coutinho dá continuidade às políticas educacionais desastrosas de governos anteriores” e que “a situação dos professores de CG é a mais humilhante”.

Tristes exemplos

Sobre os professores estaduais, diz Sizenando: “Sete mil têm contrato precário de trabalho. Com formação superior, recebem entre R$ 545 e R$ 775”. Sobre os professores do município, afirma. “Os salários estão abaixo do que recebe um professor em Areial, Arara, Alagoa Nova, Esperança, e da maioria dos municípios pobres da PB”.

Comparação

O Sintab, que é presidido pelo professor Napoleão Maracajá, fez um alarmante comparativo, que deixa ainda mais evidente o quanto o magistério é desprestigiado no Brasil. Conforme o Sintab, o piso nacional da categoria deve chegar a 1.384 em 2012.

Enquanto isso

Ainda conforme o Sintab, um técnico legislativo do Senado começará 2012 com salário de R$ 13,8 mil; um cargo de nível médio do Banco Central paga R$ 8,4 mil; servidores técnicos do Judiciário, que hoje ganham de R$ 3,9 mil a R$ 6,3 mil, pedem aumento de 56%; e um técnico administrativo das agências reguladoras receberá cerca de R$ 4,7 mil.

Para refletir

“A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida; é a própria vida” – John Dewey, filósofo e pedagogo estadunidense. Nenhuma nação poderá alcançar um processo amplo e duradouro de desenvolvimento sem educação.

História

Dom Pedro II teria dito: “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens do futuro”. Também: “Se os brasileiros não me quiserem para imperador, serei professor”.

Semana que vem

A série sobre as eleições municipais volta domingo. Até agora, relembramos as eleições de Elpídio de Almeida (47), Plínio Lemos (51), Elpídio outra vez (55), Severino Cabral (59), Newton Rique (63), Ronaldo C. Lima (68), Evaldo Cruz (72) e Enivaldo Ribeiro (76).

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