CONTO: UM MISTERIOSO BARULHO NA NOITE


Despertou do sono profundo sobressaltado. Que barulho foi aquele? Olhou para os lados, e nada enxergou que justificasse aquilo. Enfiou a mão por debaixo do banco, segurou firme uma chave de boca, aproximou-se do vidro da porta do passageiro e nada viu. Fez o mesmo na outra porta, e nada. Mas o barulho tinha o impressionado, tanto que, apesar de todo o cansaço, custou a dormir novamente. Lá pelas tantas a cena se repetiu. Acordou assustado, o coração batendo forte. Mais uma vez a chave de boca na mão, a vistoria pelas janelas e, mais uma, vez nada.

João era caminhoneiro há mais de doze anos e, portanto, já tinha visto muita coisa acontecer nas estradas, de acidentes, assaltos, roubos de caminhões e de cargas. Já escutara muitas histórias também. Aquele posto de gasolina em que tinha parado esta noite ficava, realmente, no meio do nada, cercado por mato. Agora estava fechado, as luzes apagadas, e apenas mais um caminhão fazia companhia naquela noite escura, parado a uns vinte metros da trucada de João. Naquele instante ele arrependeu-se de ter estacionado ali, naquele fim de mundo.

Consultando o relógio, viu que passavam das três e meia. Dormira pouco e, para um caminhoneiro, que conhece os riscos do sono na estrada, aquilo não era nada bom. Ainda lhe restavam dois dias de viagem, quando entregaria a carga e, depois de quase dois meses de asfalto, voltaria para casa, para rever a mulher e os filhos.

Tornou a deitar-se, a chave de boca sobre o peito, mas não conseguia dormir. Desejava ter coragem para abrir a porta e ver lá fora o que seria aquilo. Se ao menos tivesse uma arma mais decente que uma chave de boca... Logo se desfazia da idéia, afinal, mesmo que tivesse na mão uma metralhadora, ia por acaso descer do caminhão naquele breu e enfrentar, quem sabe, algum bandido ou maluco também armado? Claro que não! Era caminhoneiro e não Rambo!

Que diabos de barulho seria aquele? De certo modo, assemelhava-se a um motor, ou ao urro de um bicho grande. Não poderia, contudo, ser de algum motor que passasse na estrada, porque parecia acontecer ao lado do caminhão... ou melhor, dentro dele! E por ali não deveriam existir ursos. “Será coisa de mau assombro, meu Deus do céu?”, pensou João a certo momento, quando não conseguia imaginar mais qualquer outra explicação racional. Ora, daquelas histórias de caminhoneiro que escutou ao longo da vida, quantas não falavam sobre presepadas inexplicáveis de alma penada e espíritos maus? Sentiu arrepiar até os pelos dos dedões dos pés, ao tempo em que fazia um esforço grande para desviar tal pensamento, buscando uma resposta mais lógica para aquele mistério.

Mas a labuta na estrada é pesada, e, minutos depois, a mente de João foi sendo enevoada pelo sono. E o sono foi profundo outra vez, só que agora cheio de sonhos de ladrões e fantasmas. Num instante aquele mesmo barulho infernal fez o caminhoneiro despertar num pulo! O dia começava a clarear. Encorajado pelas primeiras luzes daquela manhã, sua arma chave de boca na mão, cautelosamente abriu a porta. Era hora de desvendar aquele mistério. Deu uma volta em torno do caminhão e nada encontrou. Sentindo um vento frio correr-lhe a espinha, voltou para a boléia, fez soar o motor, e disparou daquele lugar maldito, como quem foge de uma visão de alma penada.

Durante todo o dia andou com sono, e isso o preocupava, afinal, quantas histórias não conhecia – e algumas presenciara – de colegas de profissão que dormiam no volante e acabavam seu caminho em tragédia?

Por isso, chegou a pensar em encostar e dormir. Mas tal decisão era impraticável, afinal, estava no prazo limite para entrega da carga – preferia arriscar-se que perder tempo e ganhar a fama de atrasa-carga, o que, sabia bem, acaba por comprometer a oferta de trabalho. Procurou sustentar-se às custas de muito café, e o rádio sempre ligado bem alto. Ademais, procurava pensar em mulher, porque as mulheres sempre tiveram o poder de roubar-lhe o sono. Ah! Pensamento bom!

Entretanto, não tinha jeito, sua mente acabava por buscar as lembranças daquela estranha noite. O que seria aquele barulho? Estaria ficando louco?

Na parada para o almoço, encontrou alguns velhos conhecidos de estrada, e por muito pouco não contou tudo o que se passara. Mas, deteve-se a tempo, na certeza de que, se tal fizesse, nunca mais deixaria de ser o motivo de piadas entre a turma.

A noite se aproximava, e João imaginou como seria bom deitar mais cedo. Só que ainda havia muito chão pela frente e era melhor, em virtude da segurança, seguir enquanto ainda havia outros caminhões rodando. Amanhã, no fim do dia, se tudo desse certo, estaria em casa de novo!

Dessa vez procuraria um lugar melhor para passar a noite, um lugar de maior movimento. Rodou até encontrar um lugar assim. Comeu umas porcarias qualquer e estirou-se no banco do caminhão. Era uma noite quente e, por isso, teve vontade de armar a rede lá fora, afinal, o posto estava bem cheio, bem movimentado. Mas, cansado como estava, enquanto pensava nisso, se levantava ou não, se armava a rede ou não, dormiu! E dormia bem, em seu sono pesado. Lá pelas quatro, contudo... “Diabos!!! Isso só pode ser assombração!!! É coisa de outro mundo, sim, está me perseguindo. Nosso Senhor! Ai, meu São Cristóvão! Afasta de mim essa presepada!”

Estava desesperado. O mesmo barulho terrível, tão forte que fez seu corpo balançar, acordando-o! Parecia mais uma vez um urso, um urso enorme... ou um motor potente como o de seu próprio caminhão. Mas, olhou tudo, havia um pequeno movimento no posto, mas nada que justificasse aquele barulho dos diabos. Não teve dúvidas, engendrou uma reza, e meteu o pé no acelerador. O mistério daquele barulho terrível na cabeça o dia todo. Mas agora João tinha certeza: ou era coisa de mau assombro mesmo, ou estava ficando maluco. Uma hora tinha convicção de uma das possibilidades, mas num instante a outra lhe parecia mais provável.

Finalmente, carga entregue, rumou para casa, não distante mais que quarenta quilômetros do ponto de entrega. Se quisesse, já tinha serviço, mas precisava ver a família – e repousar, afim de ter a certeza do que estava acontecendo. A festa dos filhos, para os quais levou pequenos presentes, e da mulher, a quem entregou o dinheiro para as despesas do mês, fez muito bem a João. Não o suficiente para evitar que sua querida esposa percebesse que algo estava errado. Mas ele nada falou. Não queria falar daquilo, pelo menos não aquela noite, até porque preocuparia Carolina por algo que talvez nem fosse nada, apenas cansaço acumulado, o famoso estresse. Isso! Sabia o quanto estava cansado ultimamente. Precisava dormir – e muito.

Como era bom poder se espichar naquela sua cama! Como era bom poder sentir o calor do corpo de Carolina, depois dormir com ela sobre o peito... Sentia-se muito bem, embora temesse que aquele barulho estranho voltasse a atormentá-lo. A mulher já dormia. João finalmente dormiu.

E tudo foi muito, muito rápido. Sentiu mais uma vez o mesmo barulho miserável sacudir-lhe o corpo e, antes que abrisse os olhos, percebeu que uma mão lhe sacolejava os ombros. Saltou da cama e pôs-se de pé, instintivamente acendendo a luz. Percebeu que era Carolina que lhe havia balançado os ombros, e agora lhe dizia algo que não pôde, ante o estado de torpor que o tomara, escutar.

- O que foi, mulher?! – perguntou, o semblante de agonia. Carolina pareceu achar graça da reação do marido, mas respondeu:
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- Homem, você está roncando feito um bicho, como se fosse um urso. Chega a balançar a cama toda! Que barulho infernal! Até parece o motor do teu caminhão velho!

Fim
Lenildo Ferreira

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