UM CEMITÉRIO DE HISTÓRIAS VIVAS: HÁ ONZE DÉCADAS, MONTE SANTO GUARDA, EM SILÊNCIO, A HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE


Há mais de 11 décadas o cemitério Nossa Senhora do Carmo, no bairro do Monte Santo, em Campina Grande, cumpre seu papel de lugar de resignação, despedida, dor e saudade. No entanto, para além da triste incumbência, delegada a toda necrópole, o Monte Santo, como testemunha centenária de uma fase de frenéticas mudanças na vida campinense, silenciosamente encerra entre seus túmulos de arquitetura variada, parte dessa história. São incontáveis as figuras de relevo, personagens marcantes do passado, que ali descansam no último sono, formando um conjunto que, embora silencioso e inerte, faz do espaço um mausoléu da história de Campina Grande. Uma história viva.

Logo à entrada, na principal rua, o visitante reparará, à esquerda, um túmulo sem maiores pompas que guarda os restos mortais de vários membros da família Figueiredo, raiz de uma das principais árvores genealógicas da Paraíba. Mais à frente, à direita, num enorme, porém, simples, o mausoléu (foto acima) onde está sepultado o homem que por mais tempo governou Campina Grande, o dinamarquês Cristiano Lauritzen, morto em 1923. Adiante, encontra-se o túmulo da família Vital do Rêgo.

Lá estão inumados os corpos do major Veneziano, falecido em 1962, e do seu filho, o jurista Antônio Vital do Rêgo, que morreu no ano passado. Ainda a alguns metros e, na mesma rua, um túmulo danificado pela ação do tempo, com uma obra de arte inacabada, sem qualquer nome ou informação que identifique quem ali está, guarda um dos maiores nomes da história campinense: o tribuno, poeta, jornalista e político Félix de Sousa Araújo, morto em 1953.

Fora da principal via do cemitério, outro personagem de destaque na história política da cidade e do estado repousa após uma morte até hoje misteriosa, ocorrida em 1987. Trata-se de Raymundo Asfora, encontrado sem vida uma semana antes de assumir o cargo de vice-governador. O bonito jazigo (foto ao lado), feito de mármore e granito, em que se sobressai uma letra "A" (de Asfora, claro), está coberto por azeitonas pretas, que sobre ele caem de uma árvore que o sombreia. Do orador vibrante Asfora, resta uma frase: "Pior do que não ter a santidade de multiplicar o pão, é não ter a humildade de saber dividi-lo".

Estão sepultados no cemitério Do Carmo outras dezenas de líderes políticos das primeiras décadas de Campina Grande. Além deles; porém, centenas de figuras que se destacaram em outros segmentos também descansam em paz no alto do Monte Santo.

O ator, compositor e radialista Rosil Cavalcanti, falecido em 1968, está sepultado no lado leste do cemitério, num pequeno túmulo escuro (imagem ao lado) identificado apenas com o nome Rosil, em que pode-se ler, a despeito de algumas das letras douradas já terem desaparecido, uma homenagem que diz: "Sua música é como sua lembrança: tem a força inapagável das coisas eternas". De fato, não se apagarão da memória popular canções como "Meu Cariri", "Tropeiros da Borborema" (parceria com Raymundo Asfora eternizada na voz de Luiz Gonzaga), e "Saudade de Campina Grande" (sucesso interpretado por Marinês).

No eixo oeste do Monte Santo, encontra-se o jazigo onde estão guardados os restos de dois cronistas, verdadeiros escribas da história campinense. O primeiro, Epaminondas Câmara, autor de livros como "Datas Campinenses", "Os Alicerces de Campina Grande" e "Municípios e Freguesias da Paraíba", morreu em 1958. O segundo, Cristino Pimentel, falecido em 1971, foi autor de obras como "Pedaços da História de Campina Grande" e "Mais um mergulho na História Campinense".

Na quadra inicial da necrópole, também encontra-se o túmulo de Irineu (na redação legítima, Irenêo) Joffily, um dos maiores historiadores da Paraíba. Joffily, que faleceu em 1902, foi também jurista renomado, político e geógrafo. Numa outra quadra, o visitante encontra um túmulo em cujas rachaduras nascem e crescem ervas daninhas, e no qual se pode ver um vaso de flores há muito sem vida. É o jazigo de Hilton Motta, pioneiro do rádio campinense, que morreu em 1992.

Pouso final do líder do Quebra Quilos e do temido cangaceiro


Um dos primeiros jazigos do Monte Santo, à esquerda do portão principal, é a última morada do personagem de uma história que sacudiu a Paraíba e estados vizinhos. Trata-se de João Vieira da Silva, o "João Carga D'água", apontado como o principal líder do início da revolta do "Quebra Quilos", de 1874, insurreição em que os revoltosos, não aceitando o novo sistema de pesos e medidas, quebraram as caixas de madeira de um e cinco litros entregues pelo poder público aos feirantes, e jogaram os pesos dentro do Açude Velho.

Reprimidos, defenderam-se contra-atacando com rapaduras. Por isso, no túmulo de João Carga D'água (foto ao lado) encontra-se a frase: "Herói maior do Quebra Quilos; Atirou uma rapadura, acendeu um sol".

Após fugir do controle de João, a revolta descambou para um longo processo de violência, brutalmente respondido pelo poder público. Carga D'água escapou do cruel colete de couro, método pelo qual alguns dos revoltosos foram executados, e morreu em 1911, aos 70 anos. Também no Monte Santo estão os restos mortais de um certo Manoel Batista de Morais, o temido Antônio Silvino. Falecido em 1944, Silvino é um dos mais conhecidos nomes do cangaço, que no auge das suas atividades era chamado de "Rifle de Ouro" e "Governador do Sertão" - este último, um título que ele mesmo teria se concedido. Por mais de uma década e meia aterrorizou os sertões, até ser preso, em 1914. Após sua anistia, em 1937, passou a viver em Campina Grande, onde morreu e foi sepultado em algum lugar do Monte Santo.

Uma história iniciada no século dezenove

De acordo com relato do ex-prefeito Elpídio de Almeida, em seu livro "História de Campina Grande", o cemitério Nossa Senhora do Carmo (conhecido como cemitério do Monte Santo ou, ainda, do Carmo), teria sido construído entre 1899 e 1900, durante a gestão do prefeito João Lourenço Porto. Na verdade, conforme Elpídio, não houve uma construção: "À míngua de tempo, não foi possível à administração municipal realizar as obras indispensáveis: muro de contorno, capela e cruzeiro. Mal pôde limpar o terreno, aplainá-lo e cercá-lo de arame. Estava inaugurado".

O problema é que o primeiro cemitério da cidade, possivelmente construído em 1857 (antes, os mais abastados eram sepultados em igrejas, os pobres, em qualquer lugar), e que funcionava onde hoje são as Boninas, em 1899 achou-se sem capacidade de atender à demanda de Campina. "Construído para atender a uma população de dois mil habitantes, a vila da época (1857), era de tamanho reduzido", explica Elpídio. Às pressas, portanto, foi erguido o cemitério do Carmo, hoje também incapaz de atender à cidade. Mas, ao contrário do cemitério velho das Boninas, destruído em 1931, o Monte Santo deverá manter-se como um marco, guardião da viva história de Campina Grande. E a história não pode morrer.

Matéria nossa publicada no Diário da Borborema de 27 de fevereiro de 2011

4 comentários

Cláudio Goes disse...

Essa matéria mostra como é difícil produzir um Blog fazendo jornalismo sério. Manter uma página na internet atualizada copiando é fácil. O artigo é uma peça que faz história no jornalismo da Paraíba.

suenia silva disse...

olá vc tem mais alguma coisa falando sobre o cemitério das coninas

Anônimo disse...

Ele colocou os créditos logo abaixo....

Lenildo Ferreira disse...

Verdade, mas faltou incluir que a reportagem publicada no Diário da Borborema (hoje extinto) é minha

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