EM ENTREVISTA EXCLUSIVA, RODRIGO SOARES FALA SOBRE AS DIVISÕES DO PT E VOLTA DE COZETE: 'NÃO É UMA MILITANTE QUALQUER'

Quando o Partido dos Trabalhadores foi fundado, em 10 de fevereiro de 1980, Rodrigo Soares ainda era uma criança, com menos de cinco anos. Hoje, é presidente da legenda na Paraíba, eleito num processo tumultuado e cheio de controvérsias, quando derrotou o deputado federal Luiz Couto, que tentava a reeleição. O resultado que definiu seu nome para o comando petista não acalmou os ânimos no partido. Pelo contrário, acentuou ainda mais a divisão, que criou um fosso entre dois PT’s antes, durante e após as eleições de outubro passado. Em entrevista exclusiva ao colunista do Diário da Borborema Lenildo Ferreira, Rodrigo Soares falou sobre a guerra fratricida do PT paraibano, aponta perspectivas para o futuro e fala sobre a ex-prefeita Cozete Barbosa.

No último dia 10, o PT completou 31 anos. No plano nacional, a última década transformou o PT num dos mais fortes (se não o mais forte) partidos nacionais. Uma realidade que não se refletiu na Paraíba. Por quê?

Na Paraíba, o PT passou por disputas internas que muitas vezes comprometeram o desempenho do partido no processo eleitoral, também já erramos em outros estados, a exemplo do Rio Grande do Sul, em que quando na reeleição de (Olívio) Dutra para governador tivemos uma prévia que nos levou a derrota eleitoral (Nota: em 2002, Dutra foi derrotado nas prévias do partido por Tarso Genro, que não seria eleito). Hoje o PT deu a volta por cima lá. Aqui, mesmo com estes momentos de tensão interna, o partido cresceu nas últimas eleições, atingimos pela primeira vez o coeficiente eleitoral para a câmara federal e aumentamos de dois para três os mandatos na Assembleia Legislativa.


Além disso, as alianças na Paraíba seguiram a orientação nacional e a coerência com a conjuntura estadual e contribuiu para a vitória da chapa Dilma/Temer e para a eleição de uma bancada aliada na Câmara Federal e no Senado. O nosso partido tem a democracia como marca fundamental, e, em alguns momentos ela nos custa muito. Mas, cada dia o PT vem amadurecendo e percebendo a necessidade de priorizar a unidade interna para ganhar força nas transformações que precisamos fazer na sociedade.

Antes da campanha de 2010, a eleição interna do PT aprofundou as diferenças do partido na Paraíba, e descambou para uma onda de acusações e pesadas trocas de farpas entre seu grupo e o grupo do deputado federal Luiz Couto, ex-presidente estadual da legenda. Isso significa que a democracia interna do PT está fora de rumo?

A democracia é nossa marca fundamental. Da nossa parte, nunca privilegiamos a disputa interna e não gasto energia com acusações a nenhum companheiro ou companheira. As minhas divergências são na política. Depois de vencermos democraticamente, buscamos construir sempre o diálogo, e é o que continuamos fazendo. O PT tem uma capacidade enorme de renovar-se a partir de suas eleições diretas e na Paraíba não é diferente, uma nova geração de dirigentes foi eleita para dirigir o partido, com participação maior das mulheres, e queremos aproximar mais ainda o PT da juventude, mantendo a boa tradição do socialismo e da radicalização da democracia.

Atualmente, seria o PT o partido mais difícil de ser presidido?

Não vou adentrar na economia interna dos outros partidos, mas o que posso afirmar sem sombra de dúvidas é que o nosso partido não tem um dono sequer, as decisões são tomadas pelo conjunto do partido, de forma coletiva, e baseada nas transformações sociais que defendemos para o país. Aos 31 anos, o PT assume pela terceira vez o governo nacional e, desta vez, com uma mulher presidenta, depois de governar o país por oito anos com um operário que deixou o poder e caminha na rua de cabeça erguida ao lado do povo brasileiro. Não há dificuldade em presidir um partido com esta história e conquistas.

Durante a última campanha, Luiz Couto acusou o senhor de tentar prejudicá-lo, lançando e favorecendo a candidatura de Jeová Campos. O padre perdeu espaço até no guia eleitoral. O senhor tentou trocar um petista adversário na Câmara Federal por um petista aliado?

De maneira alguma. Jeová e Luiz Couto, assim como todos os candidatos, foram importantes para o partido atingir o coeficiente eleitoral pela primeira vez na Câmara Federal. A direção partidária não podia e nem tinha candidatos, cada um fez sua opção individualmente e qualquer mudança no guia quem decidia era o colegiado do partido, que definia as regras gerais para todos os candidatos.

Como é sua relação com Luiz Couto hoje? O senhor espera que ele seja punido pela direção nacional por não ter adotado a orientação do partido durante a campanha?

Temos tido algumas conversas, o PT precisa dialogar mais e organizar o projeto partidário para a Paraíba, sempre em sintonia com o projeto nacional – somos um partido nacional. Sobre a dissidência pública nas eleições passadas, foi um péssimo exemplo para o eleitorado e vai de encontro à boa tradição democrática do partido, até porque nos palanques dos dissidentes estavam adversários históricos do PT, a exemplo de Efraim Morais e Cássio, do DEM e do PSDB. Mas prefiro não tecer opinião a respeito.

O senhor demonstrava a intenção de ser candidato a deputado federal. Acabou sendo candidato a vice, no lugar de outro petista, Luciano Cartaxo, que era o vice-governador e assim queria manter-se. Seria correto dizer que os desdobramentos daquele processo levaram a um desfecho que o senhor não esperava – e não queria?

Sim, não pelo resultado, mas pela opção que tive que fazer. Há cerca de dois anos vinha sendo convocado pela militância para a disputa federal, mas ao final o partido nos colocou na missão de garantir a aliança com o PMDB e compor a chapa majoritária. Valeu por ter contribuído com a eleição de Dilma, nossa prioridade número um. Não adiantava o PT e aliados vencerem em todos os estados e perdermos a Presidência da República. Agora, que já passou 2010, precisamos trabalhar 2011 e priorizar a reforma política.

Como o senhor espera que os três deputados estaduais do PT se comportem em relação ao governador Ricardo Coutinho? Dá para esperar que eles sigam a indicação do partido?

A bancada tem feito um bom trabalho e mantido a tradição do PT no legislativo. Tive oito anos de experiência na Assembleia, cumprimos nossa missão com a juventude, os movimentos sociais e com a revolução democrática iniciada com o governo Lula. Tenho certeza que nossa bancada estadual também o fará.

É prioridade no PT estadual ter candidatos às prefeituras das principais cidades da Paraíba em 2012? O senhor apoiaria a candidatura de Luiz Couto a prefeito de João Pessoa? O partido atualmente tem quadros para lançar candidato em Campina Grande?

Acho muito cedo falarmos em nomes. O PT precisa discutir o programa, a ideia e articular alianças e apoios ao programa. O PT e as esquerdas precisam ter candidatos em João Pessoa, Campina Grande e nos principais municípios da Paraíba. João pessoa tem uma tradição de votar em Lula e no PT, foi assim agora com Dilma. Acho que é o momento do partido se colocar à disposição da cidade.

A ex-prefeita de Campina Grande, Cozete Barbosa, expulsa do PT em 2007, manifestou a intenção de voltar ao partido. O senhor seria contra a volta de Cozete? Por quê?

Este é um debate que deve começar no diretório municipal de Campina Grande. Cozete não é uma militante qualquer, foi vereadora e prefeita pelo PT, tem uma experiência que o PT viveu conjuntamente, com acertos e erros, e esta discussão, se for provocada, o partido vai precisar enfrentar com maturidade.

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