OPINIÃO: OS AMIGOS DO REI

Fugindo dos soldados famintos e esmolambados de Napoleão Bonaparte, há 203 anos a corte portuguesa chegava ao Brasil. Na companhia do medroso príncipe regente Dom João (depois rei Dom João VI), milhares de súditos desembarcaram nas terras tupiniquins e, na condição de amigos do rei, puderam gozar de todos os privilégios possíveis. Os anos passaram, o sistema de governo já mudou várias vezes, mas em todos eles esquemas de privilégios aos amigos do “rei” foram mantidos.

Com a insipiente democracia brasileira, o apadrinhamento virou ferramenta eleitoreira e os governantes, se não chegam ao extremo do francês Luis XIV, o “Rei Sol”, que dizia “o Estado sou eu”, agem como a dizer “o Estado é meu”. Foi assim que a máquina pública virou cabide de emprego, tornando famosas as enormes listas de exonerados e nomeados governo após governo, apesar de a Constituição de 1988 determinar o concurso público como regra para ingresso na carreira pública. Os amigos do rei estão acima da lei.

Agora, quando o Ministério Público recomenda e o estado passa a demitir os primeiros não concursados, muitas vozes que se erguem para denunciar a suposta crueldade do governo por demitir pais de família. Já ponderamos, em outra ocasião, sobre o sofisma desse argumento. Cabe ressaltar, no entanto, que a defesa do clientelismo na máquina pública é – venha de quem vier – mais um caso de defesa da ilegalidade.

Quem esteve nos quadros do estado após a Carta de 1988, apesar do drama que é a perda do emprego, não pode ser considerado como vítima, porque trabalhou e recebeu por isso – se recebeu pouco ou muito, é irrelevante, a maioria absoluta de nossa população, mesmo sem emprego público, ganha mal e luta para viver. No mais, essas pessoas ocuparam espaços que deveriam ter sido preenchidos por pais de família aprovados em concurso público, dentro da legalidade. Todo mundo quer ver o Brasil e a Paraíba mais moralizados, mas ninguém parece querer ser atingido por esse processo.

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