OPINIÃO: ESPASMOS DEMOCRÁTICOS


A democracia brasileira ainda é frágil, incipiente e permeada de controvérsias. Na Paraíba (como em outros estados do Nordeste), esse quadro tem seus agravantes, caso do forte neocoronelismo que, nas últimas eleições, recrudesceu sedento de poder, por meio do fortalecimento das velhas e novas oligarquias políticas. Mas, um analista minimamente neutro verá que dois eventos recentes do nosso processo eleitoral revelam a quebra do paradigma óbvio dos acertos políticos, através de reações populares inesperadas. São, digamos, espasmos democráticos.

O primeiro data de 2004, quando Veneziano Vital do Rêgo elegeu-se prefeito de Campina, quebrando a hegemonia de mais de duas décadas do grupo Cunha Lima, justamente quando Cássio governava o Estado. Antes daquele 31/10/2004, data do segundo turno, poucos apostariam que um jovem vereador de cabelos compridos seria o responsável pelo fim de um longo ciclo de poder. Mas, contra as expectativas, Veneziano venceu – por 791 votos.

O segundo evento deu-se na noite do último 03 de outubro, quando as urnas desfizeram a tese, tida como certa do Litoral ao Sertão, de que José Maranhão venceria com centenas de milhares de votos de vantagem a Ricardo Coutinho. Ricardo venceu o primeiro turno e, no segundo, contra toda a reação do Governo, ampliou substancialmente sua vantagem. Até as 17 horas deste 03 de outubro, poucos diriam que um ex-prefeito alto, magricela e não muito simpático seria o responsável por derrotar uma estrutura política e eleitoral imensamente superior, num pleito dado como previamente resolvido.

Todavia, contra todas as expectativas, Ricardo venceu. Não questionamos, aqui, o mérito das disputas, mas apenas o fato lógico de que os resultados foram surpreendentes manifestações da vontade popular. E, quando a vontade popular se faz soberana contra todas as expectativas, temos inequívocos espasmos democráticos, indicações de que a legítima democracia talvez ainda possa suscitar-se entre nós.

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