OPINIÃO: 'O MENINO-URUBU'

Chamava-se Diogo da Silva Marinho e tinha 14 anos. Mas, a verdade é que seu nome não importa, não faz a menor diferença. Exceto para seus pais e irmãos que ainda choram sua tragédia, ele é apenas mais um menino que morreu.

Um menino pobre que vivia de sobras e que no lixão da cidade avidamente disputava todos os dias com outros esmolambados meninos, além de homens, mulheres e urubus, nosso malcheiroso lixo, os resíduos indesejados dos campinenses. Saberia o pobre menino Diogo que era ele mesmo um resíduo indesejado de nossa sociedade? Saberia o pobre menino Diogo que aquilo não é lugar para uma criança, que não é lugar para gente, só para urubus?

Sua vida curta e sofrida acabou sob um caminhão. Mas o que esmagou o menino Diogo não foi a roda do pesado veículo. Foi a miséria. A miséria que esmaga em vida, que faz de uma pobre criança um menino-urubu. Assim como faz de homens e mulheres sem perspectivas homens-urubus e mulheres-urubus.

A miséria poderia ter feito dele um menino-bandido, mais um assassino, moleque de rua, delinqüente juvenil. Mas, embora a miséria seja indigna, há dignidade nos miseráveis. Uma dignidade indignada, uma dignidade guardada, talvez escondida aos nossos olhos sob os andrajos desta gente descartada feito lixo. Para ambos – lixo e gente-urubu – torcemos nosso nariz.

Essa criança não vai virar nome de rua. Ninguém decretou luto oficial pela sua morte. É só um menino-urubu que morreu! Um menino que vivia dos nossos restos, inclusive os restos malcheirosos de nossas malcheirosas políticas públicas.

Eis um emblema fidedigno da falência do Estado, da sordidez das nossas políticas sociais, da hipocrisia dos discursos eleitoreiros, da completa depravação moral da nossa sociedade! Jogamos gente no lixo e julgamos que o lixo é seu lugar.

Há quem diga que o lixo de um indivíduo conte muito sobre quem ele é. Pois o lixo de uma sociedade certamente também diz quem essa sociedade é. E diz que ela apodrece. Adeus, menino-urubu.

Publicado em nossa coluna (Diário Político) no Diário da Borborema deste domingo

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