REPORTAGEM ESPECIAL (PARTE 2): MORTES DE JOÃO DANTAS E AUGUSTO CALDAS - SUICÍDIO OU DUPLO HOMICÍDIO?

A versão oficial da morte de João Dantas e seu cunhado, Augusto Caldas, na cela da Casa de Detenção do Recife, dizia que, no dia 06 de outubro de 1930, o primeiro matou o segundo, com sua concessão, e depois praticou suicídio, utilizando uma lâmina de bisturi. A família dos dois jamais acatou essa informação, tanto que Joaquim Moreira Caldas, irmão de Augusto, publicou o livro “Por que João Dantas assassinou João Pessoa”, em que apresenta uma série de argumentos contrários à versão do suicídio.

A maior parte destes argumentos é de dados técnicos, observações de perícia criminal e médico legal, como a análise do local do crime, que teria sido adulterado, além do fato de João Dantas apresentar dois cortes na garganta, dentre outros indícios.

Na contramão, o principal argumento em prol da tese do suicídio está nos dois bilhetes escritos e assinados por João Dantas e Augusto Caldas, que teriam sido atestados por laudos grafotécnicos como legítimos. Para Joaquim Moreira Caldas, no entanto, os dois sabiam que seriam mortos e, por isso, estariam realmente preparados para praticar o suicídio, daí terem deixado já prontos os bilhetes, temendo não haver tempo para escrevê-los quando percebessem que seriam mortos – mas não teriam se matado.

Essa ainda é uma cena rodeada de mistérios. Desde aquela época, entretanto, afora os encarregados de disseminar a versão oficial dos fatos, pouca gente cria na tese de suicídio. Aliás, o sangramento era uma prática comum nas execuções sumárias àquela época. Seja qual for a verdade, a história precisa contar que, em nome de atos de justiça, agentes da revolução praticaram as mais diversas atrocidades, principalmente em Pernambuco e na Paraíba.

Foi o que talvez tenha ocorrido com as mortes cruéis de João Dantas e Augusto Caldas. Foi o que aconteceu com a destruição dos bens da família Pessoa de Queiroz, formada por primos de João Pessoa que se tornaram seus adversários. Foi assim com a morte do ex-presidente da Paraíba, João Suassuna, executado pelas costas no Rio de Janeiro, por ter sido apontado como envolvido no suposto complô pela morte de João Pessoa.

Morto, João Pessoa foi velado e sepultado como mártir da revolução. Morto, João Dantas foi sepultado como anátema, em propriedade da família, em São José do Egito, interior de Pernambuco. Mas, essa história de oito décadas não tem heróis. Talvez, em verdade, sejam todos vítimas, talvez sejam todos vilões. Provavelmente são todos um pouco das duas coisas. Vítimas e vilões de uma mesma tragédia humana de arrogâncias, ódios e paixões.

Um comentário

Andréa Dantas disse...

Este último parágrafo resume perfeitamente esta ópera entre João Dantas e João Pessoa. Dois homens influentes e parcialmente inteligentes, pois se deixaram envolver pelo mais vil dos sentimentos: a vaidade. e por causa de egos feridos, foram,também, feridos e de modo cruel.

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