REPORTAGEM ESPECIAL 80 ANOS DA MORTE DE JOÃO PESSOA (PARTE 1):
JOÃO PESSOA - MÁRTIR OU TIRANO?

Dia 26 de julho de 1930. No Recife, João Dantas assassina a tiros seu desafeto político, o presidente paraibano (cargo equivalente hoje ao de governador) João Pessoa. Após o crime, Dantas é baleado, sobrevive e, preso, comete suicídio, degolando-se, após matar o cunhado, Augusto Caldas, com o consentimento deste, preso por estar envolvido no homicídio do presidente. A morte de João Pessoa aceleraria a Revolução de 30, que poria fim à chamada República Velha no País. Na Paraíba, a Assembleia Legislativa muda o nome da capital, de Paraíba para João Pessoa. Ponto.

Essa é uma síntese do que a maioria de nós aprendeu na escola sobre os fatos que marcaram aquele histórico ano de 1930. Hoje, porém, nenhum pesquisador ou historiador minimamente sério admite tal versão, elaborada – como era praxe em muitas versões históricas – para retocar os fatos, criar heróis e justificar acontecimentos. E, nesse sentido, um ponto fundamental a ser recontado é o que desmente a tese do crime político.

A intriga de João Pessoa e o advogado João Duarte Dantas realmente teve início na violenta indisposição política do presidente com a família Dantas, oligarquia que dominava a região do município paraibano de Teixeira. Aliás, João Pessoa foi um governante que entrou em conflito com as principais oligarquias do Estado, o que resultou até numa guerra (literalmente) no município de Princesa (ver página seguinte). Nesses conflitos, o governador era acusado de empregar métodos violentos e baixos contra adversários (prisões arbitrárias, depredação de patrimônio, calúnia), como teria acontecido com a família de João Dantas, que acusou João Pessoa de prender seus parentes, além de mandar incendiar uma fazenda da família.

Com o clima quente na Paraíba, que cheirava a chumbo com a guerra de Princesa, João Dantas foi para Pernambuco, onde tinha parentes. Dali confrontava João Pessoa, por meio dos jornais do Recife, enquanto este, por sua vez, atacava através de “A União”. O jornal oficial era a trincheira de violentos ataques, e foi por meio dele que iniciou-se uma pesada campanha de calúnias contra a família Dantas, principalmente João Dantas, apontado como líder de um plano subversivo. No dia 10 de julho, a polícia invadiu o escritório do advogado, de onde retirou documentos pessoais e de clientes, além de correspondências pessoais.

E parte do material foi publicado com estardalhaço. “A União” envolveu na história a noiva de João Dantas, Anayde Beiriz – para alguns não sua noiva, mas sua amante. Segundo o jornal oficial da Paraíba, havia em um cofre do escritório tórrida agenda com anotações sobre João e Anayde, detalhes íntimos de encontros ardentes, que não foram publicados, mas disponibilizados à curiosidade pública na Chefatura de Polícia. O assunto virou galhofa da capital ao interior do Estado. No dia 25 de julho, véspera do crime na Confeitaria Glória, “A União” chama o pai de João Dantas, o velho Franklin Dantas, de “chefe de quadrilha”.

No dia seguinte, o fatídico 26 de julho, o advogado, que estava em Olinda, deslocou-se para o Recife, onde faria publicar mais um artigo contra o chefe do executivo paraibano. No meio do caminho, leu novos ataques contra ele mesmo e sua família, em “A União”, descobrindo também, pelo mesmo jornal, que o presidente encontrava-se no Recife. Dantas teria retornado a Olinda e apanhado o revólver que mataria João Pessoa. Novamente no Recife, o procurou, até encontrá-lo na Confeitaria Glória e, antes de disparar, teria afirmado: “Sou João Dantas, a quem tanto injuriaste e ofendeste”.

Após ferir mortalmente João Pessoa, Dantas foi atingido por um tiro disparado pelo motorista do presidente, desmaiando e sendo socorrido para o pronto socorro, onde se restabeleceu. Já o presidente paraibano morreria instantes depois de ser ferido, espalhando-se a notícia como um rastilho de pólvora a incendiar a Paraíba e Pernambuco, precipitando, em seguida, a revolução que, há muito, esperava para eclodir. Os tiros desferidos no crime da Confeitaria Glória ecoariam por meses, numa onda de violência que antecedeu, acompanhou e seguiu-se à revolução.

Mas, aquele não foi um crime político. Foi, na verdade, um típico delito para “lavar a honra com sangue”, conforme o código moral de então. Não justifica o ato de Dantas, mas explica. E explica sem os devaneios da velha história, que tentava fazer do morto um herói, um mártir, e do segundo um assassino, um pistoleiro de um bando movido a cobiças políticas, um monstro. Nenhum dos dois merece tais qualificativos.

2 comentários

Francinaldo Lopes disse...

Gostei bastante do artigo. este tipod eresgate precsia ser feito. Parabens.

Francinaldo Bezerra (neto de terezeniha dantas)

Anônimo disse...

Belo texto, meu jóvem! Você tem um talento jornalístico tal qual o Rau, e de tantos outros aí da minha terra. Quem sabe um dia possa vê-lo mais de perto! Um abraço fraterno!

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